Como os ansiolíticos e antidepressivos podem causar a perda da libido

 

Desde cedo demais para lembrar – na primeira vez em que os pais procuraram auxílio profissional, ela tinha apenas sete anos -, a blogueira americana Crista Anne tem como companheira indesejada a depressão. Ao longo de inúmeras crises, Crista descobriu um aliado:

— Quando estava na escuridão da minha doença, eu usava o orgasmo como forma de lembrar a mim mesma que existe prazer a ser sentido. Não era a cura para minha depressão, não era uma forma de conserto, mas era uma ferramenta para seguir em frente que usei desde que consigo lembrar. Minha habilidade de encontrar prazer na escuridão me salvou tantas vezes que perdi a conta.

Aos 32 anos e mãe de três filhos, Crista pela primeira vez se considera desassombrada pela depressão graças a uma combinação arduamente ajustada de medicamentos antidepressivos. Mas retomar a energia, o prazer de viver, ironicamente, levou embora o seu antigo companheiro das noites escuras. A anorgasmia, a inibição recorrente do orgasmo mesmo com os devidos estímulos, é um dos efeitos colaterais mais comuns do uso de antidepressivos e ansiolíticos, bem como a diminuição da libido.

Como mudar os remédios mais uma vez após décadas de ajustes estava fora de cogitação, Crista deu início em seu site e no seu Twitter ao #OrgasmQuest (#BuscaDoOrgasmo, em tradução livre), um divertido test drive de técnicas, posições e acessórios sexuais em busca do gozo perdido. Em questão de semanas, a iniciativa de falar abertamente sobre o sexo sob medicação ganhou milhões de cliques e a atenção da imprensa mundial.

A blogueira não está sozinha. Nem na depressão, nem na perda do prazer e, felizmente, não mais em falar sobre o assunto. Uma mudança de mentalidade recente, sobretudo em se tratando de mulheres.

Segundo previsões da Organização Mundial de Saúde, em apenas cinco anos a depressão será a segunda doença mais prevalente do mundo, superada apenas pelo infarto agudo do miocárdio. Até lá, os antidepressivos serão os medicamentos mais vendidos pela indústria farmacêutica. Há duas formas de interpretar esses dados. O copo meio cheio é que o preconceito com doenças mentais, que muitas vezes impede o diagnóstico, vem sendo superado. O meio vazio é o crescimento a olhos vistos da doença no século 21. Seja pela peculiaridade da nossa rotina, seja por um possível exagero no uso desses medicamentos sem prescrição médica.

O livro O Demônio do Meio-dia – Uma Anatomia da Depressão foi publicado em 2001 como uma forma de o autor, o nova-iorquino Andrew Solomon, compreender e superar a própria doença. Até hoje é considerado um dos textos mais elegantes, sensíveis e completos sobre o tema. Nele, Solomon compara a depressão a um floco de neve: “Não existem duas pessoas com o mesmo tipo de depressão. Como flocos de neve, as depressões são sempre únicas, todas baseadas nos mesmos princípios essenciais, mas cada uma exibindo um formato irreproduzível e complexo”.

Daí o risco de analisar de forma precipitada a diferença no número de relatos de depressão se comparados os dois sexos. Desde as primeiras menstruações até a menopausa, o índice é, historicamente, de duas a três vezes superior entre mulheres do que entre homens. Uma das pesquisas mais recentes sobre o assunto, realizada nas principais metrópoles da América Latina e publicada no início de 2012, trouxe dados que vêm ao encontro da média histórica.

Segundo levantamento da São Paulo Megacity Mental Health Survey, 10% dos homens e 23% das mulheres paulistas já sofreram ou ainda sofrem de depressão. Se questionados sobre “qualquer transtorno de ansiedade”, o número sobre para 19,5% e 35,8%, respectivamente.

Segundo Solomon, “as depressões devem ser interpretadas dentro dos contextos nos quais ocorrem”. A incidência de mais casos entre mulheres é ora atribuída à química, ora às condições culturais e sociais. O mais provável é que os dois fatores se combinem, mas esse é um debate frequentemente contaminado por fatores políticos.

Do ponto de vista biológico, as mulheres passam por uma série de eventos de vida cujos efeitos no organismo podem resultar em depressão. Alguns todos os meses, como a menstruação, outros ao longo da vida, como o parto e a menopausa. Mas a biologia sozinha não explica o fenômeno. Se os organismos de homens e mulheres são diferentes, também é verdade que elas são destituídas de seus direitos de cidadania com mais frequência.

O machismo ajuda a explicar a depressão feminina, mas também atinge os homens

Em comparação aos homens, mulheres têm maior probabilidade de serem vítimas de abuso, maior probabilidade de serem pobres, menor probabilidade de serem instruídas, mais chance de sofrerem abusos e humilhações regulares ao longo da vida e estão mais propensas a serem subjugadas fisicamente e moralmente pelos maridos. A esses males, somem-se as novas atribuições da mulher pós-moderna, como a tripla jornada, o peso da maternidade ou a culpa por não exercê-la. Todos são considerados, na linguagem psiquiátrica, “fatores estressores”, gatilhos para a angústia e para a depressão.

Mesmo com tudo isso na conta, deduzir que mulheres são mais deprimidas do que os homens pode ser enganoso. Solomon cita, por exemplo, as diferentes análises de uma pesquisa que relatou número de casos semelhantes do transtorno entre universitários americanos dos dois sexos. Pelo viés feminista, alguns analistas concluíram que grande parte das mulheres deprimidas, acometidas pelo mal, não chegam à faculdade. Outros preferiram uma análise otimista: observaram que, em um ambiente mais igualitário de convivência entre os sexos, os casos se equivalem. Mas poucos colocaram na equação que homens universitários são jovens e instruídos e, portanto, também mais propensos a encarar a depressão como uma patologia do que seus pais e avôs e buscar tratamento.

Se mulheres relatam mais casos de depressão, também é verdade que os homens são quatro vezes mais propensos a cometer suicídio. A relação também é de aproximadamente quatro homens para cada mulher no abuso do álcool e das drogas. Também são eles que agem com mais violência contra familiares e desconhecidos. Ou seja, se a depressão é significativamente maior entre as mulheres, muito é pela iniciativa delas de procurar um médico em vez de refugiar-se na bebida ou em outras substâncias. Nesse caso, o homem é vítima do próprio machismo: macho afoga as mágoas no bar, não no consultório.

Seja para o combate à depressão, seja para lidar com os efeitos colaterais dos medicamentos, a precisão no diagnóstico da doença é fundamental.

Falta de libido

Embora seja apontada como um problema central para relacionamentos, é um erro não dar atenção à falta de libido em razão dos medicamentos mesmo quando se está solteiro. Foi o que aconteceu com a funcionária pública Fabiana (o nome foi alterado a pedido da entrevistada), hoje com 34 anos.

Após a aprovação em um concurso em outro Estado, em 2012, Fabiana foi surpreendida às vésperas da mudança com a notícia de que o namorado não iria mais acompanhá-la. A decepção com o fim do relacionamento, somada aos problemas do emprego novo e à solidão na cidade estranha trouxeram de volta a depressão, mal que já a acometera na adolescência. A perda de libido, curiosamente, foi até bem-vinda naquele período.

— Como eu ainda sofria por causa do namoro, achei até bom não me interessar por alguém por um tempo. Tive algumas transas, mas não curti, e acho que riscar o sexo da minha vida naquela época até facilitou a minha adaptação. Eu não me preocupava mais com isso — conta a servidora pública.

Os problemas apareceram quando Fabiana começou a se relacionar com o atual namorado, há pouco mais de um ano. Percebendo a diminuição do interesse pelo sexo mesmo apaixonada pelo parceiro, ela procurou ajuda de um especialista e optou pela diminuição na dose da medicação em um terço. Mas imediatamente voltou a sentir os sintomas da depressão, o que a levou a recuar na decisão.

— Eu poderia tentar trocar a medicação, mas tenho receio. Acontece também que aprendi a curtir o sexo de outra forma. É menos intenso, mas é prazeroso de uma forma diferente. Eu ainda preciso me esforçar um pouco mais do que antes para me interessar. Mas tento não demonstrar. Seria difícil falar isso para ele sem parecer falta de amor — relata Fabiana.

Esse “prazeroso de uma forma diferente”, citado por Fabiana, tem explicação neurológica. A maioria dos antidepressivos atua regulando a transmissão da serotonina, substância química que atua como neurotransmissor. Simplificando, a serotonina é a responsável por enviar mensagens ao cérebro. É ela, por exemplo, que comunica ao cérebro quando estamos angustiados, irritados, o quanto ficaremos em alerta durante o sono, quando estamos saciados com a comida, e assim por adiante.

Os antidepressivos não necessariamente diminuem ou aumentam o nível de serotonina, mas ajustam essa transmissão, o que impacta na regulação do humor. A diminuição da libido se explica um pouco aí, na ausência de sentimentos extremos quando a serotonina desliza macia pelo cérebro. A paciente não vai ter um ataque de tesão quando o marido sair do banho, mas por outro lado não vai querer jogar o excelentíssimo pela janela ao avistar a toalha molhada em cima da cama. Afinal de contas, ela não tem mais os picos de irritação por qualquer bobagem como antes dos remédios. Viva a serotonina.

A anorgasmia funciona de forma um pouco mais complexa. O problema nesse caso é que o orgasmo depende dos pequenos lapsos da transmissão de serotonina. Por isso alguns usuários de medicamentos descrevem o novo prazer sexual como “em ondas”. Os tremores estão lá, os vasos dilatadores deixam os órgãos genitais à flor da pele, a respiração está ofegante… Mas é como se tudo isso pegasse o cérebro um pouco distraído. Ele entende que algo está acontecendo, mas falta aquele espasmo, aquela descarga de quando o cérebro entende que algo está maravilhosamente errado. Não por acaso alguns antidepressivos são receitados para casos de ejaculação precoce. É quando um pouco de distração no cérebro vai bem, obrigado.

Amenizar ou corrigir por completo esses problemas é algo que médico e paciente precisam ajustar caso a caso, com acompanhamento profissional.

Há estudos animadores também sobre o efeito positivo no cérebro de alimentos ricos em antocianina – presente basicamente em ameixas, amoras, framboesas e mirtilos, aquilo que os fabricantes de iogurte chamam de “frutas vermelhas” – e também do ômega 3. Caprichar na sardinha pode não curar a depressão, mas dá uma forcinha.

Já o exercício físico, além de elevar a autoestima do praticante, produz a endorfina que eleva o nível de satisfação. Isso se o esporte for praticado com bastante frequência: são necessários pelo menos 40 minutos intensos a cada 48 horas. Outros benefícios são melhora do sono e prevenção ao ganho de peso, também um efeito colateral indesejado de alguns antidepressivos.

Por fim, a psicoterapia e o uso de medicamentos são complementares, não excludentes. Conversar com o terapeuta e avaliar periodicamente os avanços do dia a dia ajuda a manter a motivação com o tratamento.

Embora em níveis diferentes, toda depressão e seus efeitos colaterais são influenciados de alguma forma pelo contexto de vida. Criar em torno de si uma rotina em que a pessoa se sinta feliz, saudável e bonita é fundamental.

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